quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Da chuva à tempestade



E quantas foram as vezes que te deixei passar?
Acho que todas as vezes que acabei sobressaltando meu medo pela coragem. Hoje eu ouvi a chuva batendo sorrateiramente pela vidraça embaçada. Estava frio, eu estava lá sentindo sua pele, sua respiração, mas sem você. Pus-me a pensar na delicadeza com que essa água percorria a janela; ela era tão solitária quanto eu. Da mesma forma que estava acompanhada pelas demais, ainda assim percorriam o caminho sozinha. Elas caiam juntas - sim, isso era o mais belo - elas eram inseparáveis. Nasciam de uma mesma origem, e desciam do céu unidas, mas o que é o céu senão o paraíso? Assim que tocavam a realidade, separavam-se, machucavam-se até desaparecerem no chão ou em qualquer superfície que, por fim, escondia a magnitude de uma espetacular e antiga união.
Sou como elas, o céu transfigura-se em seu nome, o paraíso que nos une e transborda amor. A realidade encurta os minutos, os transforma em pecadores espelhos do prazer, transforma em maldade o amor e a injustiça em poder.
Não importa o tempo que leve, mas a persistência é a fonte da realização. Toda a vez a terra separa e mata as gotas de chuva, mas, ainda assim, elas insistem em cair de novo e de novo. Matar? Tenho certeza que não, apenas adormece-as numa solidão que encontra forças para alegrar-se.
E por que falo isso tudo? Acho que compreendo que o ser humano erra, e muitas vezes, pois é natural. Contudo, o sábio é aquele que percebe a hora de parar de errar e extrair dos erros anteriores a frieza necessária para que os mesmos não retornem.
Acho que estou um pouco dividido ainda. Nota-se pela minha mania de achar. A chuva não "acha" que ela vai cair, ela cai. Ainda que tenha que provocar tempestades, sabe que, depois tudo se conserta e acostuma-se à ela.
Entretanto, eu ainda "acho", e essa maneira irritante de refletir-me nos outros, em não encontrar o reflexo de mim que me perde para as palavras aladas que substituem a minha opinião. então, escolho: terei a leveza de uma brisa ou a força da tempestade?
Como a brisa, também existo, mas acredito ser uma brisa no inverso; ela incomoda por apenas existir, mas, mesmo assim, não não causa mudanças. Já a tempestade mostra sua soberania, acua aqueles que a desafiarem e desafia, simplesmente, a todos. Muda o cenário e se faz protagonista do dia, ou dos dias.
Penso que a tempestade é a tentativa desesperada das pequenas gotas de chuva permaneceram unidas. Talvez seja a explosão da raiva perante todos e, ao final, ninguém consegue ignorá-la, pois ela está lá no som do dia, no corpo, na rua, empossando suas lágrimas e esbravejando sua raiva. E todos se curvam à ela, ou apenas, a respeitam, convivem. Elas não se separam mais, pela dor, as poças as unem por um tempo, até que esse mesmo tempo as sequem. Ainda assim, permaneceram juntas até o final... até que o Sol as levasse de volta ao paraíso de onde surgiu esse amor.







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