Sou as p a u s a s dos segundos,
aquelas que ninguém vê, mas sabe que existem.
Sou o 12º sonar do sino, aquele que ninguém mais percebe,
pois sabe que o minuto já passou.
Sou a última página de um livro de história para crianças,
aquela que não é mais ouvida, pois as outras já cumpriram seu papel
de transbordar a criança no sono.
Sou o som dos carros para aquele que ouve música,
pois passo por despercebida.
Mas, ao mesmo tempo, sou o ar
Sou a água,
Sou os sorrisos
e as lágrimas.
Essencial para uns, dispensável para outros.
Sou o que deveria ser, o que me fiz ser.
Sou o que fizeram de mim,
Sou o que o futuro moldará.
Presa ao tempo?
Não, creio ser presa à história.
A história dos dias,
à história que não fiz acontecer.
Sou presa às lembranças.
Àquelas de quem fica, enquanto me despeço.
Sou mente, encontro, despedida, reencontro
Sou passado, presente, e incerto futuro
Sou um sorriso velho, um carinho trêmulo
Sou o grito, o sussurro
Sou a obediência e seu inverso.
Sou um livro lacrado, julgado pela capa
Sem sinopse lida
Sem força de se abrir.
Transformo-me em brisa e, aos poucos fico no ar.
Sou memória e desmemória de qualquer um.
Quem eu sou?
Talvez uma página virada, ou um novo verso escrito.
Sou o molde de outras vozes ou
Construo-me pela propagação da minha?
Sou o abismo livre de um sonho
Ou o mais intenso derradeiro fim
Sou, então, a saudade.
Saudade do tudo e do nada.
Vendo que uma brisa
Pode ser uma ventania.
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