quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Olhe para trás



Rio, 11 Set. 2013

Quando estamos sós é que notamos as coisas ao nosso redor. Percebemos os parênteses ecoados com o vento. Através de vozes mudas, o corpo concerne a linguagem mais perfeita. Com essa consciência, vi um jovem casal. Eles discutiam e, por mais que a voz estivesse tomada pela raiva, eles reprimiam-na em um baixo tom. Um ouvia o outro com uma atenção impaciente.
Num descuido, me deparei com os dois de pé. Eles gesticulavam altamente, já que, como eu, eles também achavam que essa era a forma universal de demonstrar a razão. Eles pareciam nervosos... Os corpos balançavam numa valsa indecisa: iam embora em em meio segundo voltavam.
A impulsividade feminina imperou. Ela pegou o celular, olhou -o e depois saiu após esbravejar algumas palavras à ele.
Ele estava paralisado. Visto de longe, parecia conformado com a situação. Porém, a cena se abriu. Ela olhou de leva para trás enquanto caminhava na oposta direção. Era um olhar triste. Ela esperava que ele estivesse ali, atrás dela. Mas, ele estava a alguns metro dali, atordoado. Suas mãos, constantemente levadas à cabeça, mostravam seu desespero. Ele olhava o celular e fazia um movimento de reprovação. Talvez estivesse esperando alguma mensagem dela. O orgulho aumentava a distância dos dois.
Deu-se, então, espaço aos ruídos mundanos da tarde.Por um momento, ele olhou ao redor e se fixou no banco onde haviam estado. Acredito que, assim como eu, ele tinha transformado aquele lugar na presença viva de alguém. Depois de alguns minutos ele saiu também. Naquele instante, acho que eu consegui sentir as almas despedaçadas. Estavam em estilhaços de rancor, em pseudo-aborrecimentos,  que sobrepõem o sentimento. Mas, agora, ele andava mais devagar. Talvez porque esperasse vê-la retornando. Talvez esse fosse o mesmo desejo dela em algum lugar.
O palco se desfez e eu estava sozinha novamente. A minha sombra se movia incompleta. O vento não me gelava mais. Eu estava pensativa. Acho que o dia estava. Os lugares possuíam forma e as formas se resumiam a uma. Seria estranho se alguém me visse assim: sentada num banco a escrever. Contudo, acho que ninguém mais estava me vendo.
Uma criança passou e sorriu para mim, mas vocês sabem; crianças tem dons especiais. E eu, não tinha mais som. Formei-me em fragmentos de um dia, de lembranças. Estava em tudo, mas ao  mesmo tempo, em mais nada.

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