sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Qualquer dia



Poderia ser qualquer dia, mas era o dia do meu aniversário. Eu não queria estar ali, desejava ignorá-lo. Algumas pessoas  pensariam que era porque não queria ficar mais velha, mas a idade era o que menos me importava. A verdade era que eu não estaria, de fato, vivendo esse dia. Seria um dia a mais no calendário. Um dia preguiçoso, inútil, triste, silencioso. A primavera parecia rechear todos de alegria e, acho que o meu jardim era o único a permanecer no inverno. Eu só queria tê-lo comigo. Fragmentos de uma vida respingados em suplicantes pedidos que eu fazia todas as noites.
Só desejava isso, uma leve felicidade. Será que eu era a única a não vê-la hoje?
Tantas pessoas comemoraram meu aniversário, enquanto eu, nem queria que ele existisse. Todos os presentes chegaram, menos o que eu mais esperava: você. A escolha de sua ausência me sobrepujava os olhos. Não era culpa sua! Minha felicidade era construída por mim. Cada peça, cada dia era reflexo do que eu fazia. Todas as coisas que eu recebia eram apenas o complemento de meus atos.
Poderia ser qualquer dia, como o aquele no qual eu parei para me enxergar, que vi no espelho meu reflexo que há muito não existia. Poderia ser o dia que eu pude assinar meu nome sabendo quem eu era. O dia que eu caí numa realidade sem retorno. O dia que o "eu"foi usado de forma consciente.
E se fosse o dia do despertar da página, o dia de rasgar o capítulo ou preencher o livro? Era esse o meu dia, mas será que era o dia?
Talvez fosse um dia a mais, um dia a menos. Um dia certo na incerteza do que fazer. Um dia incerto de encontrar você. De qualquer forma o que eu faria agora?
Cantaria os anos que não vi? Ou os anos que verei?
Poderia ser qualquer dia...
- Oi! Obrigada, não precisava.
- De nada, parabéns!
...mas era o dia do meu aniversário.

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