quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Yellow Brick Road - Capítulo II

Oito anos se passaram...

- Helena, vai se atrasar para o colégio!

- Nossa! Já são 06:00h! - pensei - Tudo bem, mãe, já estou descendo!

Não havia nada melhor do que acordar e tomar um bom banho antes de ir para o colégio. O dia estava quente e as flores da primavera que enfeitavam as árvores me fizaram recordar o que havia acontecido há alguns anos atrás. Parecia que nada havia mudado - somente eu - aliás, a paisagem estava como antes.

Abri meu armário, pronta para mais um matinal confronto de sugestões até decidir o que iria vestir. Meus olhos se arrastaram até um vestido lilás que por muito tempo permanecera guardado. Foi como ele que tive meu primeiro...sei lá o que! Talvez sonho, talvez ilusão ou uma realidade que depois de tantos anos, ainda permanecia numa incógnita. Eu tinha que perder o trauma desse vestido! Assim, foi ele que escolhi para usar no primeiro dia de aula.

Colocá-lo era como se estivesse revivendo tudo.  Cada toque do tecido em minha pele me fazia sentir o calor do corpo dele. Mas, de tudo que já havia visto ou sentido, de somente uma coisa eu não esqueceria; das palavras ditas por aquele rapaz. Oito invernos se passaram sem que pudesse vê-lo novamente, seja em sonho ou em uma possível realidade. Já estava na hora de sair, aliás, mais do que na hora. Mas, atraso no primeiro dia de aula era normal, sabia que meus professores esperariam minha turma chegar. Estava muita ansiosa e nem entendia o porquê.

Peguei meu carro e, enquanto dirigia observava que a rotinas das pessoas na rua. Engraçado perceber que muita coisa permanecia como antes; a vida continuava a seguir seu rumo e foram os cumprimentos matinais, o cantos dos pássaros e o barulho de água na calçada, que me fizeram perceber isso. Era eu que havia mudado.

Finalmente cheguei no colégio. Estacionei o carro, o que foi muito complicado devido a quantidade de veículos que já haviam no pátio; falei com uma ou duas pessoas que encontrei pelo caminho e segui em direção ao portão de entrada. Olhei para os lados, que droga, pensei. Não havia ninguém que conhecesse; detestava início de ano letivo por causa disso!

Contra vontade, fui até a secretaria para saber qual era minha nova sala de aula. Fiquei uns 5 minutos lá dentro e logo saí em direção a informação que foi dada. Passei por quatro professores que haviam me dado aula nos anos anteriores e, entre cumprimentos e sorrisos, meu olhar se desviou um pouco do que estava à minha frente. Senti um forte esbarro em meu braço que fez com que minha bolsa caisse. Olhei rápido e ele se abaixou, pegou minha bolsa e me entregou.

Em meio a desculpas eu, finalmente, pude atentar para os traços daquela pessoa. Era ele! Sabia que era, nunca confundiria tais feições. Meus lábios secaram pelo nervosismo e senti as batidas de meu coração em meus pulsos. O tempo desacelerou ou talvez tenha até parado, pois eu nada mais ouvia, sentia ou via além dele. Depois de segundos, meu cérebro se lembrou de funcionar, ordenando um sorriso e um "obrigada".
Ele sorriu com um pouco de timidez e virou se para sair.

- Espere! Não está lembrando de mim? - disse no desespero de ouvir a voz dele.

- Desculpe - ele respondeu- Acho que nunca nos vimos antes - sorriu.

- Não é possível! Você deve estar enganado, já que se encontrava comigo quase todos os dias e do nada desapareceu! Quero saber o que aconteceu durante todo esse tempo! - disse com um pouco de ansiedade, mesmo acreditanto não ter sido a melhor coisa a ser feita.

- Você só pode estar delirando! Eu nunca te vi! Será que você não entende? Eu só te ajudei, porque, por um acaso esbarrei em você! Ponto...Só isso! - disse ele.

Senti que ele estava um pouco nervoso pelo seu constante engolir de saliva. Mas, não podia deixá-lo ir ambora assim.

- Pode, ao menos, dizer seu nome? - ao dizer isso, minha percepção visual escorregou até um leve desenho que ele carregava com ele.

- Miguel - disse, tentando se acalmar.

- O meu é Helena! - dei um leve sorriso, na tentativa de quebrar um pouco o clima. - Desculpe perguntar, mas, o que é esse desenho que está carregando? - realmente não entendia o porquê da ansiedade de descobir isso, mas somente fiz o que meu coração mandou.

Vi-o sorrindo com o canto da boca antes de olhar novamente para mim. - Na verdade, esse desenho foi feito pela minha irmã que tem 5 anos. Ela desenha isso há uns 2 anos; minha mãe e eu não conseguimos entender o motivo e acho que nem ela consegue. Uma vez nos disse que teve vontade de desenhar e simplesmente o fez. - disse ele variando sua atenção entre o mim e o desenho - Olhe, acho até que é bonitinho! Ela sempre diz que é para mim, devo ter uns 20 iguais a este - sorriu novamente, enquanto elevava a folha até minhas mãos.

A medida que ele me falava isso, observava o desenho que, aos poucos, chegava até minhas mãos. Não podia ser aquilo! Meus olhos já começavam a alcrimejar ao ver cada traço. Como ela sabia?

- Você está bem? - ele perguntou com um leve e sincero tom de preocupação.

Sem conseguir tirar os olhos do papel disse:

- Isso é o que aparece em todos os desenhos do mágico de Oz, não é? - perguntei com um tremor em minha voz.

-Sim, porém ela nunca ouviu falar dessa história. Esse desenho, na verdade, representa...

Cortei sua fala num ímpeto de terror misturado com surpresa.

- A chamada "Yellow Brick Road".

Nenhum comentário:

Postar um comentário