Num jardim na mais bela tarde de primavera...
Sentada no gramado, o esperava chegar com as rosas que sempre me trazia quando começamos a namorar. No mesmo horário, no mesmo local...mas desta vez ele não veio. O choro invadiu meu rosto com as lágrimas que não me deixavam esconder minha tristeza. Corri com o ímpeto em meus pés em direção a um pequeno riacho onde sentei-me a sua borda.
Com meus olhos fixados na água que refletia um sol de cristal, joguei três pequenas pedras que pairavam os meu redor. Rodeada de perguntas sem respostas, fiquei confusa...deitei na grama e esperei.
Estranho pensar agora nisso tudo, parecia que não havia passado de um sonho que, infelizmente, teria sido perecível. Mas ninguém poderia tirar da minha cabeça e convencer-me de que aqueles momentos não haviam passado, simplesmente, de ilusões; pois tudo foi muito real.
Um embaraço residia em minha mente e tinha que, de alguma forma, entender e descobrir o que realmente tinha acontecido durante esse tempo.
Lembrei-me, então das mensagens que ele me mandava todas as noite e que eu sempre mantive na memória de meu celular. Corri para casa e peguei meu celular, o abri, fui até as mensagens e nada: "inbox empty"...não podia ser!!
Já não sabendo mais se eu mesma existia, fui o mais rápido que pude para o quarto e peguei minha agenda telefônica (tinha que ter o número dele), porém o que vi foram páginas e mais páginas em branco, um tom tão alvo e que nunca pensei que pudesse me conceder tal agonia. O ar me faltava, e comecei a pensar que não soubesse mais distinguir a realidade da imaginação. Aquilo não podia estra acontecendo, não comigo!
Sentei-me na beira de minha cama tentando encontrar uma saída para tudo isso... Pensei, pensei e, claro, mesmo que não houvesse registros dele, eu ainda sabia o número de cor. Peguei o telefone e liguei na esperança que ele me atendesse e acalmasse as batidas do meu coração com sua voz. Disquei e para minha surpresa ouvi a mensagem: "Este número de telefone não existe.".
Como não!!!! Ontem havia ligado para ele...e agora...era como se também não existisse.
O que está acontecendo comigo? Por quê? Nós éramos feitos uma para o outro, nos amávamos e nos completávamos tão perfeitamente como um quebra-cabeça.
Não aceitava, deveria ter algum vestígio do que passamos juntos em minhas coisas...não sabia o que. Talvez anotações, cartas, músicas... Era impossível que tudo houvesse sumido de um dia para o outro.
Nada encontrei...Já desesperada, chamei minha mãe. Tinha certeza que se eu tivesse saido ontem, ela teria visto. Perguntei à ela sobre o dia anterior e minhas saídas. Mediante a afirmação dela, dizendo que eu havia saído no dia anterior (o que estava fazendo há tempos); tentei minha última cartada...o nome dele. Com minha voz quase falhando e a luz da cozinha tremeluzindo em meio a mim e minha mãe, tomei coragem e perguntei sobre ele (era óbvio que se houvesse alguém minha mãe conheceria). Ela, portanto, indagou com a cabeça e perguntou de quem estava falando. O choro, até então contido, se libertou. Mesmo diante dos apelos de minha mãe, não quis explicar o porquê disto. Virei as costas em direção ao quarto e ouvi a voz de minha mãe me chamando.
Virei ainda de cabeça baixa, pois não queria que visse como meus olhos já estavam inchados. Ela entregou me um caderno e disse que eu o havia esquecido ontem no porão. Peguei-o sem nem ao menos olhá-lo e levei-o comigo até o quarto.
Joguei-o na cama e ele abriu automaticamente com o impácto. Olhei de relance e vi o nome dele escrito em uma das páginas. Peguei e folheei-o.
Foi, então que toda a história me veio a tona...Percebi que o que estava lendo era um conto, escrito por mim. Voltei até a primeira página do caderno e li: "Numa tarde de primavera eu e você andávamos através daquele jardim onde nos conhecemos e, com de costume, levava em minhas mãos a rosa que me deste. (...)".
Chorei numa harmonia descompassada entre soluços e suspiros. Significava que tudo não havia passado de uma história, criada por mim, onde, na qual estava vivendo e reconhecendo-a como realidade e, denominando a realilidade como ilusão.
Senti alguém batendo na porta. Era minha mãe, então perguntei à ela o que eu trazia todas as vezes que voltava de caminhadas no jardim. Assim, disse o que temia ouvir, que eu voltava com uma rosa na mão.
Desci a escada correndo, saí e fui até o jardim onde havia um simples senhor que todas as tardes dava comida aos pássaros. Perguntei-o, já quase sem voz, sobre minhas idas lá e pedi para que ele descrevesse a cena que via todos os dias.
Ele disse, com um sorriso, que todos os dias eu chegava no jardim, sentava na grama, olhava o relógio e, quase sempre na mesma hora, perdia meu olhar num horizonte que nem ele conseguia alcançar. Como num transe, sorria para o vazio, levantava e colhia uma rosa do canteiro. Sentava-me novamente, esperava uns momentos e ia embora.
Não consegui desperdir-me daquele senhor que me fizera ver a verdade, pois estava atônita demais para isso. Mas antes que eu fosse embora ele me chamou. Eu me virei para ele e aguardei. Então me disse que em meio a isso tudo, havia uma coisa que o deixava confuso.
Pensei que mais confuso do que eu, ele não poderia estar. Gesticulei com a cabeça afim que ele prosseguisse, então disse-me que todos os dias, um rapaz observava calado minha rotina no jardim, e percebendo que eu ia lá dentro de um mesmo horário, passou também a acompanhar. Todos os dias ele se senta numa distância de uns 3 metros e a abserva numa placidez e plenitude de olhar que nunca imaginei que pudesse existir e assim que você sai ele planta uma rosa no mesmo canteiro do qual você as tira. Por isso que nunca faltou nenhuma. Fiquei calada após o testemunho daquele senhor, pois nunca havia prestado atenção nisso.
Voltei para casa, pensativa e ainda com os olhos vermelhos. Fui ao quarto, peguei o meu caderno e rasguei cada página na fúria de quem viveu muito tempo envolta à imaginação. Deitei-me e esperei o dia raiar.
Saí na mesma hora e fui ao jardim, o vi sentado na grama e pela primeira vez acho que o olhar dele foi retribuido pelo meu. Olhei o senhor sentado no mesmo banco dando de comer aos pássaros e num breve sorriso acenou-me com a cabeça e olhou o rapaz que também estava à sorrir. Sabia que algo havia acontecido e obtive a confirmação quando ele se levantou e caminhou até mim com uma rosa na mão.
Fiquei sem palavras e nada podia sentir além da minha respiração. Ele se aproximou e ao entregar-me a rosa disse que por fim eu havia despertado de um profundo sono e que, agora, ele estaria comigo vivendo essa realidade como o sonho que eu há muito escrevera e nunca havia vivido... E ainda me disse, que sabia de todos os meus gostos e motivos de felicidade, pois havia passado muitos dias de sua vida a contemplar-me - enquanto eu imaginava uma vida e esquecia-me de viver - completei.
O olhar dele tocou o fundo de minha alma, enquanto nossos lábios se encontravam, tive uma sensação que me fez perceber quanto tempo eu passei idealizando um amor intocável em palavras e me esqueci de ver a sublime poesia que pairava diante de mim esperando que eu a lesse.
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