sábado, 12 de julho de 2014

A casa de vidro e a casa de madeira






 Em um lugar distante, que minha mente não se recorda mais, havia duas casas, uma de vidro e outra de madeira. As duas estavam igualmente abandonadas por anos, até algumas pessoas foram vê-las para comprarem. Contudo, elas ficavam muito longe da cidade e o caminho até elas era muito longo, ainda mais da casa de madeira. Caminho cheio de curvas, escuro e muito mais longo do que para a outra, fato que afastou qualquer possibilidade de compradores.
O tempo se passou  e o que já era de se esperar começou a acontecer: várias pessoas que não tinham casa, pensaram em ir até elas para ver se poderiam se apossar das mesmas para fazer de moradia. A maioria ia para a de vidro. O caminho até ela era mais curto e bem claro. Mesmo que a mesma não fosse quente o suficiente para aquecer essas pessoas no frio, elas aguentavam e ali permaneciam. A construção era bonita e, realmente, chamava atenção. E só isso bastou para que, em menos de 1 mês muitas pessoas lá se aglomerassem.
Algumas delas tentaram pegar o caminho da casa de madeira, mas desistiram ou por medo do escuro ou pelo cansaço da distância. Mas, nem sempre não ver o que está a frente, significa que o que te aguarda é ruim.
A casa de madeira era feia, apagada, nenhuma janela estava aberta, ao contrário da de vidro. Esta era chamativa, com um luxo exterior que faziam muitos pensarem no porquê de alguém tê-la abandonado. Ainda assim, mesmo sem conforto, ela tinha grande quantidade de "hóspedes", enquanto que os mesmos não sabiam que a outra casa, apesar da aparência era tão aconchegante por dentro, com lençóis, lareira e paz.
Cada vez mais pessoas enchiam a casa de vidro. Faziam dela um lar que nunca tiveram, a idolatravam como sendo um milagre tê-la encontrado. E todos comentavam da casa de madeira, já que muitos que estavam na de vidro, primeiro, tentaram ir para aquela. Falavam mal da mesma, sendo que nem ao menos chegaram a encontrá-la. Inventavam histórias de fantasmas e demônios que encontraram pelo caminho. Lendas que de tão bem contadas, construiam uma imagem dela para aqueles que nem ao menos sabiam da mesma, pois a veracidade da fala dos outros era tamanha.
Com a mudança das estações, o inverno chegou. O ar ficou frio e úmido e as pessoas mal tinham como se agasalhar. Como imaginei, elas se mantiveram na casa, esperando nela um abrigo e proteção que, na verdade... não deu.
A primeira chuva veio e a ventania arrastou muitas árvores do entorno. O frio era insuportável e todos tentavam de alguma forma de esquentarem. Um vento muito forte, que uivava a dor, quebrou um dos vidros que compunha a casa, com uma força e soberania que parecia rir de todos os olhos assustados que estavam dentro dela.
A temperatura gélida tomou conta de cada milímetro do local, agora tão frágil como os que ali estavam. Ainda assim, eles não se moveram para saírem de lá.
Os dias se passaram e muitas pessoas morreram de hipotermia. Até que um deles sugeriu:
- Vamos para a outra casa, a de madeira, aqui está horrível e estamos morrendo!
Alguns aceitaram a ideia, num ímpeto de tentarem de salvar. E assim foram. Chegando no outro caminho, o viram todo escuro, as árvores tombadas parecia dar um ar ainda mais assombrado à paisagem. O homem que sugeriu a ideia, Karl, seguiu na frente e os outros o acompanharam. Alguns dos que estavam com eles na casa de vidro os olhavam a enfrentarem o caminho e diziam:
- Ainda que passem por esse caminho, não sobreviverão até lá! Há monstros e as intempéries são muitas! Vocês são bobos! A casa de vidro nos acolherá melhor!
Eles não ouviram as implicações e seguiram.
Alguns ainda estavam com medo e, pelo caminho guiado por Karl, um dos homens se afastou, dizendo que pegaria um atalho. Este foi engolido pelo medo e nunca mais se encontrou.
O caminho era apenas um e apesar dos obstáculos e escuridão, Karl não queria achar que seria impossível chegar ao destino e, assim, seguiu. Junto com ele, agora só haviam nove pessoas.
Quatro dias se passaram e eles caminharam incessantemente. Todos já estavam desanimados, pois o frio, a fome e o medo eram mais fortes do que a coragem de seguir.
Eles se sentaram numa pedra que se localizava perto de um pequeno lago. Pensaram em desistir e estavam raivosamente falando entre si sobre a inútil ideia de terem ido para lá, pois agora estavam perdidos e poderiam morrer. Enquanto isso, Karl que estava afastado do grupo, pegou uma folha de árvore e começou a dançar com ela pelo chão de terra. Ela bailava para um lado e para o outro, até que ele encontrou uma depressão estranha no chão. Eram pegadas, mas pegadas de um humano. Ele afastou ainda mais a terra do chão e percebeu que essas pegadas se repetiam numa sequência que os levavam a frente.
Karl chamou a atenção dos demais para essas pegadas e todos se assustaram, pois já havia chovido e, pelo chão ser de terra, aquilo não poderia existir. Contudo, Karl tinha esperança que elas os levariam para o lugar que estavam procurando. Porém, uma das pessoas, uma mulher mediana e muito sisuda falou que era loucura seguir, por mais que seu coração quisesse continuar, seu orgulho não deixava. Ela decidiu, então, voltar. Seguir o caminho de retorno, às vezes é mais complicado do que seguir em frente, mas ela partiu no sentido oposto. Lucy, como ela se chamava, nunca mais foi vista. Talvez, seu orgulho, tenha bloqueado seu pensamento. Agora eram nove ao todo que seguiam religiosamente as pegadas deixadas no chão.
No final desse quarto dia, uma pequena luz pairou a frente das nove pessoas. Karl achou ser uma luz como fogo que, ao contrário de fazê-lo sentir medo, o deu uma paz inexplicável. Rapidamente olhou o restante e exclamou: -Achamos!! Encontramos a casa!!
Cada pessoa se felicitou e caminharam até ela. Como imaginavam, ela era feia, muito rústica e com uma imagem que afastaria a qualquer um. Contudo, ao entrarem nela, um ar quente e aconchegante de paz os invadiu. A lareira estava acesa e havia comida. As 730 pegadas seguidas até essa casa valeram a pena.
O caminho que os impedia de prosseguir e os dava medo, era o que levava ao melhor destino. A casa os protegia, aquela que muitos rejeitaram, era a que lhes deu segurança para fazerem suas vidas e se aquecerem do frio que de fora a cercava. Ela não era atrativa, mas era acolhedora.
Por muitas vezes, deixei esses mesmos passos para muitos que por esse caminho tentaram seguir, contudo, poucos os viram. Acreditaram mais no que os olhos enxergavam, aquela casa de vidro os atraia, e o caminho cheio de luz, na verdade era o que levava a escuridão.
No dia seguinte, um grande estrondo foi ouvido. A casa de vidro estilhaçou todos os vidros, machucando e matando muitos que ali permaneciam. A anterior beleza transfigurou-se, agora, em dor. A felicidade que parecia eterna, era uma vantagem momentânea. Enquanto isso, os nove que permaneceram na casa de madeira nunca sofreram esse problema.
Essa madeira com o tempo começou a ruir, mas eles também já estavam no fim de suas vidas e já não iriam precisar mais da casa, ela já tinha feito o seu papel, os protegeu por anos fielmente, pois também eram fiéis a ela. Nos dias de tempestade, ao invés de saírem em busca de um local para se esconderem, era nela que procuravam refúgio, assim como nos dias frios, quando também sentiam seus corações frios, era ela que os esquentava. Quando eles não mais precisaram dela, Eu os acolhi.
Seguir o que o os olhos não estão vendo, é confiar em pegadas desconhecidas pelo chão. E ainda que elas te levem para os caminhos mais tortuosos, as vezes é esse o melhor. Os que são muito lineares, não precisam de pegadas para seguirem, pois já despertam interesse por si. Contudo, não mantém a beleza de seu começo. O início de muitas tempestades resultam no arco-íris, mas nem todo o dia de Sol termina com uma noite agradável.
A partir de então eles não precisaram mais seguir as minhas pegadas, pois o tempo para eles era apenas um auxiliador do calendário, já que viviam sem observá-lo.
As casas tinham donos e Eu era o dono da casa de madeira.
















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