sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Lembrança do amanhecer




Algumas vezes não compreendemos o porquê que nosso espírito desperta primeiro que nossos olhos. É ele que guarda as ansiedades, as alegrias, ou seja, todas as sensações que são expressas por nosso corpo.
Foi assim, o relógio ainda não havia tocado, uma alma atenta em meio a uma imersão do silêncio da madrugada, despertou na sensação de perda... Logo após, os olhos se acenderam e percebendo antecipações de entusiasmo, tornaram a descansar.

O tão enojado despertador nunca tornou-se tão belo quanto naquele momento. Sua música tirou o sono, abraçou o amanhecer e contornou as curvas do sorriso. Era a assim que a manhã se reverenciava com seu “bom dia”, mais esplêndida do que as outras, aquela prometia ser única. Levantando-se com o Sol, convidou-me a dançar em seus raios, a sorrir nos tempos paralelos as aos segundos que são tão pouco percebidos.

A consciência de que o tempo passaria estava lá, guardada, intocável; e assim permaneceria até o momento de torná-la vigente. Aquela manhã não me prometeu atrasar os minutos, mas faria singularidades com eles, fato que me deixara mais feliz ou conformada.

Passaram-se algumas horas, o coração batia descompassado, modelando uma felicidade que poucos poetas já coseguiram descrever, se é que poderia ser descrita. Era algo simples, mas puro. O olhar obtinha as mais corretas palavras a serem ditas e isso era o bastante; os dois se compreendiam. A boca enrijecia os músculos num sorriso que parecia tornar-se permanente. O abraço era leve e era a ação mais sublime de ser sentida; por um segundo pensei que estivesse abraçando a mim mesma, mas no fundo...era isso que estava acontecendo.

O dia passou sendo vivido com entusiasmo - eu mal havia percebido. O Sol tinha acabado de dar o seu “Adeus” e com um pouco de lágrimas nos olhos, entendi que de verdade. Ele não mais iluminava meus cabelos, nem ofuscava minhas pupilas ao olhar o céu. Agora, eu sabia, anoitecera. Como uma manhã pode ser tão rápida? As estrelas enxugaram meu olhar e ativaram a lembrança das horas. Era o momento de ir...
Ao contemplar os lugares por onde retornava, vi nossas silhuetas ao amanhecer e enrijeci mais uma vez minha face, mas agora, era para não chorar. Entretanto, aquela manhã havia cumprido sua promessa: foi única! Aprendi a passar pelo tempo ao invés de vê-lo passar por mim.

Naquela noite, o sono embalou-me como um amigo. E por um momento, imaginei cada lugar por onde passamos... Será que o ar que ali circulava ainda guardava as vibrações dos sorrisos, o silêncio do beijo, o calor do abraço, o doce das palavras, ou seja, a felicidade deixada por nossos passos? Eu acredito que sim.
Aquela manhã ficou na lembrança... Não foi envolta por fotos, mas por sentimentos. O maior e mais detalhado álbum, fica no coração. Em suspiros e risadas; sustos e alívios; emoções e surpresas; abriu-se o livro da vida. Uma foto foi colocada, na legenda: Amor. E muitas, muitas linhas aguardando para serem transbordadas por histórias contadas por esse tempo espectador e escultor de nossa existência.




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