sábado, 23 de novembro de 2013

Então é Natal

     Então é Natal, as revistas, a televisão, tudo se transporta para um universo que se difere do restante do ano. Vemos pessoas bem vestidas, casas cheias, uma festa estupenda que faria qualquer ser humano parar um pouco, olhar para cima de modo estático e, por um segundo...sim, por um milésimo de segundo, se imaginar naquele local. Contudo, volta-se a realidade nua e crua num estalo tão rápido quanto o virar da página da revista ou o trocar de canal.
    Entretanto, sem filtros nas palavras, pego-me a pensar. O que é o Natal? Será o vermelho e o verde? Sabe, além de Natal, isso também me lembra Portugal. Serão as bolinhas brilhantes da árvore que sua mãe nunca deixou que você as colocasse com medo de quebrá-las? Deu certo, você nunca teve essa experiência, mas o mais importante foi que a visita nunca deu falta de nenhuma delas. Será o panetone que começamos a comprar desde Outubro? Será a mesa farta, pela qual você teve que faltar o trabalho, brigar com o marido, reclamar que ninguém ajuda da família, para mantê-la linda no final? Esteve sempre linda mesmo, até porque você manteve seu sorriso de satisfação até o último segundo da festa. Será a bela roupa que você comprou? Acho muito relevante essa última indagação, a final o que seria de sua imagem sem uma boa roupa que não cabe mais para nenhuma situação do restante do ano?
                Poderia passar o dia escrevendo minhas perguntas que durante toda a minha vida fiquei desesperadamente refletindo enquanto via cair as sobreviventes migalhas de rabanada que sobraram na mesa. Na verdade, eu sempre quis ver onde estava esse espírito natalino. Na TV  ele tem cores e formas, é Natal para os artistas, são os abraços de uma grande família bem estruturada...digo, família padrão. Porém, o que é esse espírito? E de comer? Posso pegar? Perguntas sem sentido, mas que refletem um pouco a efemeridade com que essa expressão vem representando ao passar dos anos.
                Pelas lojas o Natal chegou desde o mês passado. Estranho, pois pensei que o mesmo durasse só um dia.  Nunca entendi o motivo das pessoas brigarem uma com as outras em filas de supermercado com o objetivo de comprar os suprimentos para a ceia de uma festa de paz. A imagem desse espírito natalino se desfalece nos brilhos dos pisca-piscas, nos preços dos produtos, na iluminação das casas, nos presentes, no papai Noel. Todavia, na madrugada do dia 24 de Dezembro - data tão esperada - vemos que tudo valeu a pena, pois todas as pessoas se tornam boas; cartões de Natal com votos de paz, saúde e prosperidade não param de chegar e encher a sala com essas três lindas palavras intituladas padrões para aquelas pessoas para as quais você, de verdade, não tem o que escrever. As crianças rasgam os embrulhos dos presentes que tanto queriam, e percebem que mesmo não indo bem na escola ou fazendo malcriação os pais se endividaram para comprar o que pediram, afinal, é Natal. Depois disso, ahhh é só festa. A música toca até a madrugada do dia seguinte. A rua fica cada vez mais deserta e o que vemos é somente as luzes das casas acesas, o som dos risos, de talheres e louças. E, de fato, por algumas vezes, eu achei o espírito natalino vagando junto com meus pensamentos por essas ruas vazias, olhando assim como eu, essas casas sorridentes...de fora.
               Quando tudo isso acaba, os abraços apertados de minutos intermináveis regados pelo barulho ensurdecedor dos votos de paz em seu ouvido, são substituídos por um ligeiro tapa nas costas e um apressado tchau. Eu daria tudo para ser uma mosquinha e escutar o que cada pessoa estava dizendo com colocou o pé para fora de minha casa. A louça se silencia, os sorrisos se murcham na discussão de quem estará disposto a ficar acordado mais um pouco para arrumar a bagunça. Os vestígio dos embrulhos dos presentes jogados no chão relembram o esforço que foi  feito para prepará-los. Tudo volta a ser qualquer dia, de qualquer mês do ano.
                      No momento de exaustão de todos, eu olhei pela janela. O céu adquiriu a mais bela luz daquele dia, e a brisa me indicou por onde andava esse espírito natalino. Meu sorriso se abriu sem que eu estivesse moldando-o para a foto, meus olhos se fecharam e eu sinti o frescor de uma paz. Descobri, que esse espírito não tem cor, não tem imagem, mas posso senti-lo, afinal a apresenta de Deus se manifesta em nós de uma forma leve e quase imperceptível as vezes, mas com certeza é o mais perfeito modo que poderia existir. 
                E se eu quisesse passar o Natal de uma maneira contemplativa? Sem dúvidas seria rechaçada pelo restante do mundo, pois é uma festa onde você deve estar com seus amigos e parentes. Mas, e seu eu quisesse fazer a minha festa? E as pessoas que não tem uma família, que não tem nem uma casa? Qual a festa que fariam? Pelo o que nos baseando? Talvez pelos filmes, pelos bonecos de neve, já que aqui neva em Dezembro. Pode ser pelas novelas com suas grandes casas com enfeites caríssimos que deixam todos impacientes pelas compras para tentar se igualar a isso, fazendo prestações para o próximo ano - como se o mesmo já não estivesse logo ali.
                       A quem queremos enganar? O Natal somos nós! É cada um consigo, e quando eu junto o meu Natal com o seu, podemos dizer que temos bons votos de felicidade. O problema é que já perdemos essa essência natalina e acabamos por encontrar esse sentimento em enfeites, comidas e aparências. Contudo, nos esquecemos de que com o passar dos anos os enfeites quebram, os presentes são doados por não mais servirem, as roupas rasgam e os cartões são queimados; mas o que não tem data de validade são suas lembranças, sua alma é vitalícia e acredite, um dia tudo que você deixou de fazer ou fez querendo agradar os outros mais do que a você, te fará falta, uma falta que não será mais reposta. 
                  O espírito natalino vai muito além de tudo isso, ele é o encontro com seu coração, a preparação de sua consciência a descobrir o significado do Natal. Digo, por fim, que não é para deixar de sonhar com nada ou de comprar enfeites, mas que devemos perceber que o maior e mais precioso presente não é o mais caro ou o mais bonito. Precisamos compreender que o espírito natalino foi assim chamado por uma ocasião de  conveniência, porém se pararmos um segundo no silêncio da noite, podemos percebê-lo em cada dia do ano, em cada segundo das horas, a cada vez que conseguimos ouvir a voz de Deus em nós. 
                      A luz do Natal vai muito além das lâmpadas. Mesmo que a televisão quebre, que a luz falte, que os presentes não cheguem, que a comida não fique pronta e que eu não consiga comprar a roupa que queria; eu nunca...nunca, esquecerei aquela noite que senti aquela brisa tocando meu rosto. Foi naquele instante que eu senti meu verdadeiro Natal.







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